Virá o dia em que eu hei de ser um velho experiente
Olhando as coisas através de uma filosofia sensata
E lendo os clássicos com a afeição que a minha mocidade não permite.
Nesse dia Deus talvez tenha entrado definitivamente em meu espírito
Ou talvez tenha saído definitivamente dele.
Então todos os meus atos serão encaminhados no sentido do túmuIo
E todas as idéias autobiográficas da mocidade terão desaparecido:
Ficará talvez somente a idéia do testamento bem escrito.
Serei um velho, não terei mocidade, nem sexo, nem vida
Só terei uma experiência extraordinária.
Fecharei minha alma a todos e a tudo
Passará por mim muito longe o ruído da vida e do mundo
Só o ruído do coração doente me avisará de uns restos de vida em mim.
Nem o cigarro da mocidade restará.
Será um cigarro forte que satisfará os pulmões viciados
E que dará a tudo um ar saturado de velhice.
Não escreverei mais a lápis
E só usarei pergaminhos compridos.
Terei um casaco de alpaca que me fechará os olhos.
Serei um corpo sem mocidade, inútil, vazio
Cheio de irritação para com a vida
Cheio de irritação para comigo mesmo.
O eterno velho que nada é, nada vale, nada teve
O velho cujo único valor é ser o cadáver de uma mocidade criadora.
- Vinicius de Morais
A ausente, Vinicius de Morais
A coroa de rosas, Eugénio de Castro
A de sempre, toda tua , Paul Éluard
Conversa Sentimental, Paul Verlaine
O primeiro de todos os meus sonhos, Edward Estlin Cummings
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente
Talvez, acabando, comeces
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente
…
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te
Talvez peses mais durando, que deixando de durar
…
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos
Se queres matar-te, mata-te
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!
…
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
…
- Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa
Avenida Paulista
Não muito otimista
Só prédios
E poucos elos
Avenida dos amores
Encantos e esplendores
Poucos adeus e mais vinhos
Eu te amo, o som mais belo e baixinho
Avenida das almas
Algumas livres e outras lavadas
Tristes ou ouriçadas, levam bem a humanidade
Que de almas carentes trazem a verdade
Avenida dos bisbilhoteiros
Navegadores e sem dinheiro
Olha sem motivo e seguem sem prazer
curtem um bom riso e nascem sem saber